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Ninho de pterossauros com mais de 200 ovos é descoberto na China
Há 120 milhões de anos, um grupo de pterossauros, répteis voadores da época dos dinossauros, escolheu uma área nos arredores de Turpan, cidade no Noroeste da China, como seu local de reprodução.

Então, as fêmeas da espécie, Hamipterus tianshanensis, voltavam regularmente ao lugar para depositar seus ovos, criando o que os cientistas acreditam ser um “ninho coletivo”. Um dia, porém, tempestades fizeram os rios da região transbordarem, inundando a área e carregando centenas de ovos, enterrando-os em sedimentos não muito longe de onde estavam originalmente.

Com o passar do tempo, estes ovos acabaram fossilizados, preservando sua forma tridimensional em uma camada de arenito (tipo de rocha resultado da compactação de material granulado, como areia) na formação geológica da Bacia de Turpan-Hami, nesta região da China.

E ali eles permaneceram até que, muitos milênios depois, uma equipe de pesquisadores, com a participação de cientistas chineses e brasileiros, os encontrou, no que está sendo saudada como uma das maiores e mais importantes descobertas do tipo até agora, ajudando a revelar como eram, se reproduziam e desenvolviam estes animais hoje extintos e sem descendentes evolutivos.

Diferentemente do que se imagina, os pterossauros não são dinossauros, mas “primos” deles, pertencendo a outro ramo evolutivo. Estes répteis alados surgiram por volta de 225 milhões de anos atrás e foram extintos junto com os dinossauros há cerca de 66 milhões de anos.

O achado expande enormemente o registro fóssil de ovos de pterossauros, o que deverá possibilitar novas revelações sobre como eram, se desenvolviam e viviam estes animais, dos quais não restaram descendentes evolucionários hoje.

A espécie da qual foi descoberto o “ninho” na China, Hamipterus tianshanensis, alcançava uma envergadura (distância da ponta de uma asa à ponta da outra) de 3,5 metros, com cerca de 1,2 metro de altura e 12 quilos de peso.

Localizada no Noroeste da China, a Bacia de Turpan-Hami compreende duas depressões onde está o quarto ponto mais baixo do planeta, 154 metros abaixo do nível do mar. O clima é extremamente árido, do tipo deserto continental, com precipitação anual média de apenas 15,7 mm, temperaturas máximas que podem beirar os 50º Celsius e mínimas que já chegaram a -28ºC.

Relatado pelo paleontólogo Alexander Kellner, este cenário não seria crível nem para o próprio pesquisador brasileiro se tivesse sido descrito a ele não faz muito tempo, admite. Isto porque, até recentemente, o registro fóssil tridimensional de ovos de pterossauros em todo mundo se resumia a seis exemplares: um encontrado na Argentina e todos outros cinco também em Turpan.

Mas embora parte da história contada por Kellner ainda seja preliminar, ou mesmo um tanto especulatória, o achado em si - de pelo menos 215 ovos fossilizados desta espécie de pterossauro, muitos com partes dos embriões também preservados dentro deles - é bem real, e está detalhado, junto com as primeiras análises de seu conteúdo, em artigo do qual é coautor e publicado nesta quinta-feira na prestigiosa revista científica “Science”.

- É como ganhar na loteria – compara Kellner, professor da UFRJ e pesquisador do Museu Nacional, onde apresentou nesta quinta-feira réplica do “ninho de pterossauros” que ficará em exposição na instituição.

- Se há pouco tempo me dissessem que íamos encontrar mais de 200 ovos fossilizados de pterossauros juntos num só lugar, eu ia dizer que a pessoa estava maluca. Ovos já são naturalmente frágeis, o que faz com que sejam difíceis de serem preservados, e no caso de ovos de casca mole, como os de pterossauros, a situação é ainda pior, já que isso os torna ainda mais difíceis de serem fossilizados. E aí está outro aspecto fundamental de nossa descoberta: estes ovos foram parar ali depois que chuvas torrenciais os carregaram uma pequena distância desde o ninho original, isto é, seu processo de fossilização foi decorrente de um evento de alta energia, e não de baixa energia como se imaginaria, e futuras escavações devem ficar atentas a esta possibilidade.

Parte do ninho de pterossauros visto mais de perto - Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Segundo Kellner, o achado amplia o registro fóssil de ovos de pterossauros de tal forma que os cientistas esperam poder montar uma abrangente série do desenvolvimento embriológico destes animais, trazendo pistas sobre sua morfologia e comportamentos.

Para começar, ele destaca que o fato serem tantos ovos juntos em tão variados estados de desenvolvimento indica que ao menos esta espécie mantinha estes ninhos coletivos.

- Primeiro, não é de se imaginar que duzentos e tantos ovos tenham sido postos por uma única fêmea
– explica. - Segundo, ovos estragam muito fácil, então a distância inicial entre eles não pode ter sido muito grande, isto é, eles não foram trazidos de vários lugares diferentes por uma hipotética inundação e se acumularam no local onde foram fossilizados. E, em terceiro, estão seus diferentes estágios embrionários, o que aponta que foram postos em momentos diferentes.

Espécie talvez guardasse ninhos

Outro aspecto sugerido pela descoberta é que os indivíduos adultos da espécie talvez se revezassem na guarda do ninho coletivo e no cuidado com os filhotes recém-eclodidos. Isto porque nas camadas de arenito foram observadas diversas “concentrações” de ovos em estágios similares de desenvolvimento, e junto com eles também foram encontrados restos fossilizados de exemplares jovens dos animais, com idades estimadas de até dois anos. Além disso, as análises feitas até agora nos embriões mostram que seus fêmures (ossos da perna) se desenvolviam muito mais rápido que os úmeros (ossos do braço).

- Isto sugere que, assim que eclodiam, estes pterossauros tinham condições de andar, mas não de voar, requerendo algum cuidado parental – conta Kellner, para quem isso reforça a noção de que ao menos esta espécie tinha ninhos coletivos. - Já as concentrações de ovos, na nossa interpretação, indicam que esta espécie voltava regularmente para a área de nidificação, num tipo de comportamento que vemos hoje em répteis como as tartarugas, que sempre voltam para mesma praia para pôr seus ovos. É só uma suposição, mas estes pterossauros provavelmente se juntavam em uma área por algum motivo escolhida para ser seu ninho coletivo, alguns ficavam por ali a guardando, depois iam embora e as fêmeas voltavam para pôr mais ovos.

Um dos maiores especialistas em pterossauros do mundo, Kellner afirma que a colaboração com os chineses está sendo fundamental para o avanço no conhecimento sobre estes animais pré-históricos, que considera “fascinantes”. O paleontólogo brasileiro ressalta que, diferentemente do que se imagina, os pterossauros não são dinossauros. Isso, no entanto, não impediu que perecessem junto com seus “primos” répteis gigantes há cerca de 66 milhões de anos, quando, acredita-se, um grande asteroide se chocou com o planeta, exacerbando mudanças climáticas então já em curso.

- Pterossauros e dinossauros tiveram um ancestral comum, muitos milhões de anos atrás, mas depois cada um seguiu um caminho evolutivo diferente – frisa. - E apesar de as teorias atuais dizerem que as aves de hoje são descendentes dos dinossauros, os pterossauros também não têm nada a ver com isso, da mesma forma que não têm nada a ver com os morcegos e os morcegos não têm nada a ver com as águias, por exemplo. Os pterossauros não deixaram descendentes no mundo animal atual, o que os torna ainda mais fascinantes, já que não temos nada parecido com eles hoje em dia.

Kellner diz que a Bacia de Turpan-Hami é de especial interesse para o estudo dos pterossauros por ser praticamente monoespecífica, isto é, todos que viviam lá pertenciam à mesma espécie. Identificada oficialmente apenas em 2014 graças a trabalho que também contou com a participação do cientista brasileiro, a Hamipterus tianshanensis também é até agora a única no seu gênero na ordem dos pterossauros.

- Apesar da quantidade tremenda de fósseis de pterossauros que estamos encontrando, parece que só existia esta espécie lá – atesta, elogiando a disposição do governo chinês em investir no estudo da região. - A China é um dos países que mais investem em paleontologia no mundo hoje.

Já aqui no Brasil, destaca, faltam recursos para isso:

- Temos no Nordeste, na Bacia do Araripe, um dos maiores e melhores depósitos de fósseis paleontológicos do mundo que ainda é em grande parte inexplorado. Se tivéssemos 10% do que os chineses investem, estaríamos muito bem, fazendo descobertas importantes como essa frequentemente, mas infelizmente não é o que acontece – conclui, ressaltando, no entanto, que não fossem financiamentos para suas pesquisas que recebe da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), não teria condições de manter a colaboração com os colegas chineses.



Fonte: Ciência Hoje